ETFs de gestão ativa: a nova fronteira do mercado de fundos

Por décadas, os ETFs foram sinônimos de passividade: comprar um índice, pagar taxa mínima e deixar o mercado trabalhar. Esse modelo transformou a indústria de fundos global e democratizou o acesso a carteiras diversificadas, mas o mercado evoluiu e com ele surgiu uma nova categoria que combina o melhor dos dois mundos: os ETFs de gestão ativa.

A fatia dos ETFs ativos no bolo de US$ 11 trilhões dos fundos listados saltou de 2% para 10% desde 2019, quando uma nova regulamentação da SEC simplificou o processo de criação de novas estratégias. No Brasil, a categoria ainda não existe como produto doméstico regulado, mas está a caminho, e quem entender o conceito agora chegará preparado quando a regulação se consolidar.

Como funcionam os ETFs de gestão ativa

Um ETF de gestão ativa é um fundo negociado em bolsa que, diferente dos ETFs passivos tradicionais, não se limita a replicar um índice. O gestor tem discricionariedade para selecionar ativos, ajustar alocações e desviar do benchmark quando identifica oportunidades, tudo isso mantendo as características operacionais que tornaram os ETFs populares: negociação intradiária, transparência e liquidez.

ETFs de gestão ativa x ETFs tradicionais

A diferença central dos ETFs de gestão ativa para os tradicionais está no mandato de gestão. Um ETF passivo como o BOVA11 compra as ações do Ibovespa na proporção exata do índice. Um ETF de gestão ativa, por outro lado, parte de uma tese de investimento e seleciona ativos com base em análise fundamental, técnica ou quantitativa, podendo incluir empresas fora do índice de referência ou subponderar setores que o gestor considera menos atrativos.

Os exemplos globais já são robustos. A Dimensional é o maior provedor de ETFs ativos do mundo, com US$ 243 bilhões em ativos e participação de mercado de 13,4%. Em segundo está a JP Morgan Asset Management, com US$ 239 bilhões. No Brasil, a JP Morgan foi pioneira ao lançar o primeiro BDR de ETF ativo listado na B3, um veículo que replica, via recibo depositário, a estratégia de um ETF ativo americano. Os ETFs representam apenas cerca de 1% do mercado de fundos brasileiro, segundo a JP Morgan Asset Management, o que mostra que o país está no início de um ciclo que já avançou em outras regiões.

Vantagens, desafios e o panorama para o Brasil

As vantagens dos ETFs de gestão ativa são concretas. Como sintetiza Carlos, da JP Morgan, “o custo vai ser talvez maior do que o de um ETF passivo, mas com certeza menor do que o de um fundo mútuo tradicional. É trazer o melhor dos dois mundos: mitigar riscos de mercado, fazer seleção de ativos e, ao mesmo tempo, ter transparência, precificação intradiária e custos menores.”

A liquidez intradiária permite que o investidor entre e saia da posição ao longo do pregão, sem os prazos de cotização dos fundos convencionais. A transparência, com carteiras divulgadas periodicamente, é superior à de muitos fundos fechados. E o potencial de geração de alpha, com gestão ativa, diferencia o produto de um simples tracker de índice.

Nos EUA, cerca de 51% dos quase 4.300 ETFs disponíveis possuem algum nível de discricionariedade, bem acima dos 23% de cinco anos atrás. Os ETFs ativos também receberam 40% do fluxo destinado a fundos listados durante períodos de maior volatilidade.

Os desafios, no entanto, são relevantes. O custo de gestão é superior ao dos ETFs passivos, o que exige que o gestor entregue alpha suficiente para justificar a diferença. A transparência obrigatória da carteira pode, paradoxalmente, ser um risco para gestores que não querem revelar suas posições para concorrentes, o chamado “front-running risk”. E no Brasil, há ainda o desafio regulatório: a categoria não existe como produto nacional.

O horizonte regulatório brasileiro é claro. Segundo o Superintendente da CVM, Claudio Maes, a regulação para ETFs ativos deve sair em 2027. O mercado global de ETFs cresceu a uma taxa anualizada de 20% de 2014 a 2025, e as projeções da JP Morgan Asset Management apontam que o valor investido via ETFs deve pelo menos dobrar até 2030. Para o Brasil, esse movimento representa uma janela de oportunidade significativa, especialmente para gestoras que já operam com fundos ativos de qualidade e querem acesso a uma nova estrutura de distribuição.

Os ETFs de gestão ativa representam a próxima fronteira do mercado de fundos e os dados globais deixam pouca dúvida sobre a direção. O patrimônio global em ETFs de gestão ativa atingiu um recorde de US$ 1,86 trilhão ao final de novembro de 2025, crescimento de 59,4% no acumulado do ano, com 5.953 ETFs ativos listados em 46 bolsas de 36 países.

No Brasil, a categoria chega em forma de BDRs de ETFs ativos estrangeiros enquanto aguarda regulação doméstica prevista para 2027. Para investidores, gestores e consultores, o momento é de aprendizado e posicionamento porque quando a regulação chegar, o mercado que estiver preparado terá vantagem real.

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