O mundo precisa de dinheiro para financiar a transição para uma economia de baixo carbono, ampliar o acesso a saneamento básico, energias renováveis e infraestrutura em países em desenvolvimento. O problema é que os recursos públicos e filantrópicos existentes estão muito aquém dessa demanda. É nesse gap que o blended finance, ou financiamento misto, emerge como uma das respostas mais relevantes do mercado financeiro global e cada vez mais como pauta no mercado de capitais brasileiro.
Acompanhe neste artigo como esse modelo está transformando os investimentos sustentáveis.
Blended finance: uma ferramenta estratégica
O blended finance é uma forma de investimento que une recursos públicos, de fomento ou filantrópicos a capital privado com o objetivo de financiar projetos de impacto positivo social, ambiental ou de desenvolvimento econômico. Em termos simples: capital com menor exigência de retorno, proveniente de governos, bancos multilaterais ou fundações, entra primeiro na estrutura, absorvendo os riscos mais elevados e tornando o projeto viável para o investidor privado, que então aporta recursos em busca de retorno compatível com o mercado.
A lógica é: o capital público ou filantrópico não substitui o investidor privado, mas o atrai. Esse mecanismo é chamado de “catalítico”, uma alavanca que mobiliza volumes muito maiores de capital do que os recursos iniciais aportados.
O blended finance é uma ferramenta estratégica para destravar capital privado em investimentos sustentáveis, permitindo que organizações com objetivos distintos do setor privado, público e filantrópico atuem lado a lado e alcancem metas financeiras e de impacto socioambiental.
Os instrumentos mais utilizados incluem garantias de crédito, capital concessional (com juros ou prazos mais favoráveis do que o mercado), seguros de risco, empréstimos subordinados e capital de primeira perda, onde o investidor de desenvolvimento absorve as primeiras perdas, protegendo o capital privado.
Em 2024, o fluxo de operações de blended finance superou a média dos quatro anos anteriores, com 123 transações totalizando US$ 18 bilhões. Operações relacionadas ao clima representaram 49% do número total e mais de 62% do financiamento total, segundo o State of Blended Finance 2025 da Convergence. O tamanho mediano das transações subiu para US$ 65 milhões, com várias operações superando US$ 1 bilhão.
Como o modelo amplia o impacto dos investimentos sustentáveis?
Os benefícios são múltiplos e concretos. Para o investidor privado, o principal atrativo é a redução do risco percebido: o capital catalítico cobre a primeira camada de perda, tornando projetos que seriam inviáveis individualmente em oportunidades atrativas de alocação. Para o gestor e o consultor, o blended finance abre acesso a uma classe de ativos com potencial de retorno financeiro consistente combinado a impacto mensurável, uma demanda crescente de clientes institucionais e de alta renda.
Ainda assim, embora o blended finance seja hoje bem conhecido e amplamente utilizado, ele ainda não escalou na velocidade esperada e mobilizou relativamente pouco capital privado em relação ao potencial. O mercado ainda é fragmentado, com intervenções customizadas e falta de padronização e transparência, segundo a OCDE. A complexidade estrutural das operações, a dificuldade de comparação entre projetos e a escassez de dados padronizados são barreiras reais para a entrada de investidores institucionais de maior porte.
No Brasil, mais de 90% dos investidores do setor de energia apostam em parcerias para compartilhar riscos e expertise em projetos de transição energética, segundo levantamento da KPMG (2025). O interesse é claro, mas a infraestrutura de operações ainda está em construção.
Blended Finance, Financiamento Verde e a Transição Sustentável
A conexão entre o blended finance e a transição sustentável é estrutural. A transição para uma economia de baixo carbono exige trilhões de dólares em infraestrutura, energia renovável, bioeconomia e adaptação climática, recursos que nenhum governo ou organismo multilateral consegue prover sozinho. O blended finance é o mecanismo que torna possível escalar esses investimentos com participação do mercado de capitais privado.
A ANBIMA colocou o tema no centro de sua agenda. A associação lançou a Jornada de Blended Finance 2025, uma série de treinamentos online para capacitar os profissionais do mercado de capitais. O Brasil tem posição singular nesse contexto: floresta amazônica, biodiversidade, matriz energética renovável e um mercado de capitais sofisticado. A transformação do país em potência verde global pode gerar até US$ 100 bilhões adicionais ao PIB até 2030, segundo a McKinsey, e o blended finance é um dos canais para destravar esse potencial.
No mercado brasileiro, o blended finance já se manifesta em projetos de bioeconomia na Amazônia, programas de crédito para PMEs sustentáveis com garantias públicas e no setor de energia renovável, que recebe aportes combinados para acelerar a transição energética. Fundos de Investimento em Participações (FIPs) e fundos de crédito direcionados a projetos ESG já incorporam essa lógica de financiamento híbrido.
O blended finance já é uma prática em operação, com mais de 1.100 transações registradas e US$ 213 bilhões investidos na base de dados histórica da Convergence. Para gestores, consultores, family offices e instituições financeiras brasileiras, entender esse mecanismo é cada vez mais uma exigência de repertório, tanto pela demanda crescente de clientes com mandato ESG quanto pelas oportunidades concretas que esse mercado começa a oferecer no Brasil. O capital catalítico está disponível. A pergunta é se o mercado de capitais brasileiro está preparado para estruturar as operações que vão atraí-lo.
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